A linguagem dos animais

“A linguagem dos animais” é o nome de um belo conto de As mil e uma noites, de outro ainda nas Fábulas Italianas, do cubano Ítalo Calvino, e o princípio organizador do próprio gênero “fábula” no ocidente, de Esopo a La Fontaine. Da arte à pretensa realidade, vemos o cientista como um legislador austero, torcendo o nariz para o maior de todos o pecados, o antropomorfismo, isto é, a atribuição de características humanas a outros seres animados e inanimados: o boi contente, a roseira apaixonada, o mar impiedoso.

Mas peca-se tanto por excesso quanto por escassez. O reverso da medalha é o antropocentrismo, a insistência de que a humanidade é a estrela mais brilhante na constelação dos seres do universo. Muitas pesquisas com a utilização da linguagem humana por outros animais têm obtido resultados importantes e contrários a essa idéia fixa. A gorila Koko com a linguagem de sinais, passando por golfinhos que manipulam estruturas gramaticais, até o papagaio africano Alex que, ao que consta, não apenas repete, mas entende a piada.

Afinal, os animais têm linguagem? O “não” usual a essa pergunta reflete a certeza de que linguagem é o sistema de símbolos e estratégias discursivas tão habilmente manejado por nós nos bares, almoços de família e chats da internet. Mas há mais na linguagem do que ruge a filosofia ocidental. Há uns 40 anos o antropólogo Gregory Bateson nos deu a seguinte dica: se o seu gatinho mia, a melhor tradução não é “leite! leite!”, apesar de geralmente você estar absolutamente correto em interpretar assim. O bichano está dizendo algo como “dependência! dependência!”, ou seja, ele está se referindo à relação estabelecida com o dono. Isso não é nenhuma fábula de Esopo, mas um processo largamente disseminado entre os mamíferos, animais que são cuidados e ensinados, muitas vezes pela mãe, mas, a rigor, por qualquer membro mais velho da comunidade.

em: Vianna, Beto (2010). A linguagem dos animais & outros escritos. Belo Horizonte: Mazza. ps. 25-26.

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