bango, balango, senhor n’kwango

bango, balango, senhor n’kwango sozinho na cela uma letra de tango de amores roubados de sonhos rasgados destinos fodidos os dois separados pano, carpano quem é o mais humano quem olha pra dentro quem é o mais insano outra humanidade agora é saudade sofrer agorinha de noite e de tarde outra humanidade agora é saudade não ser mais gorila não ter mais vontade gingado de samba na corda mais bamba um banzo doído picada de mamba na letra do tango me chamam n’kwango sozinho na cela eu bango, balango

leipzig, junho de 2004

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A linguagem dos animais

“A linguagem dos animais” é o nome de um belo conto de As mil e uma noites, de outro ainda nas Fábulas Italianas, do cubano Ítalo Calvino, e o princípio organizador do próprio gênero “fábula” no ocidente, de Esopo a La Fontaine. Da arte à pretensa realidade, vemos o cientista como um legislador austero, torcendo o nariz para o maior de todos o pecados, o antropomorfismo, isto é, a atribuição de características humanas a outros seres animados e inanimados: o boi contente, a roseira apaixonada, o mar impiedoso.

Mas peca-se tanto por excesso quanto por escassez. O reverso da medalha é o antropocentrismo, a insistência de que a humanidade é a estrela mais brilhante na constelação dos seres do universo. Muitas pesquisas com a utilização da linguagem humana por outros animais têm obtido resultados importantes e contrários a essa idéia fixa. A gorila Koko com a linguagem de sinais, passando por golfinhos que manipulam estruturas gramaticais, até o papagaio africano Alex que, ao que consta, não apenas repete, mas entende a piada.

Afinal, os animais têm linguagem? O “não” usual a essa pergunta reflete a certeza de que linguagem é o sistema de símbolos e estratégias discursivas tão habilmente manejado por nós nos bares, almoços de família e chats da internet. Mas há mais na linguagem do que ruge a filosofia ocidental. Há uns 40 anos o antropólogo Gregory Bateson nos deu a seguinte dica: se o seu gatinho mia, a melhor tradução não é “leite! leite!”, apesar de geralmente você estar absolutamente correto em interpretar assim. O bichano está dizendo algo como “dependência! dependência!”, ou seja, ele está se referindo à relação estabelecida com o dono. Isso não é nenhuma fábula de Esopo, mas um processo largamente disseminado entre os mamíferos, animais que são cuidados e ensinados, muitas vezes pela mãe, mas, a rigor, por qualquer membro mais velho da comunidade.

em: Vianna, Beto (2010). A linguagem dos animais & outros escritos. Belo Horizonte: Mazza. ps. 25-26.

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o teu pêlo não néga padana

o teu pêlo não néga padana
laranja
e preta
e índia
e surda

o teu pêlo não néga padana
e surda
e muda
e outra
menina

o teu pêlo não néga padana
menina
e fêmea
e louca
e presa

o teu pêlo não néga padana
e presa
e pongo
e feliz
pigméia

feliz é o teu zêlo em ser de outra espécie
pongo en tu pello una loca mirada
que tu no te llamas pigméia ni nada

y demasiada y humana y nada
la demasiada la mona la nada
pra dona pidona padana perdona

perdona nosotros, por todo, por nada
perdona os outros por não ser mais nada
perdona a nós todos por sermos pra nada 

leipzig, dezembro de 2003
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Cat people

Na sala de espera somente nós dois.
Escolho o canto esquerdo junto ao banheiro feminino.
Na parede oposta lê Veja uma mulher.
– Esconde Veja a beleza do rosto.

Pernas cruzadas, bota preta.
Perfeito joelho, notei, a saia é curta e xadrez.
Giro os olhos, cruzo o joelho e a Veja.
– Gata em pele de gente na capa.

Natassja Kinski abaixa a Veja.
Verdizolhos nos verdizolhos de Natassja.
Vertiginosamente constrangedores.
– Nada abala a Srta. Kinski.

Diretos e duros e doces os dois.
Grudadozolhos nos meus e os meus nem se fala nos dela.
Ganha a tensão dimensões de grito abafado.
Deixo o limite e a libido à cavalo.

Vou de texano de esporas sangrentas?
Dou de parisiense desistencialista do amor sem pecado?
Vidiando a tez de Natassja Kinski? Obrigado:
– Divago no claustro doutor em que estamos.

Nele me estanco prostrado entre garras.
No espaço eterno eu e a penumbra, a gata e a Veja.
Na espreita, a pantera. Goza a verdade do drama:
– Nuvem se esgueira por meu pensamento.

Pesavam em Natassja problemas legais?
Eu digo: Sabe a Srta. Kinski ler português?
Ela: I beg your pardon? O advogado:
– Pode entrar Sra. Monteiro.

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Etnotaxonomia guará

Nos pampas, chacos e cerrados da sudamérica ainda trafega, em números cada vez mais perigosamente baixos, o lobo guará . É curioso o entrelaçar e desentrelaçar nas distinções do bicho entre cientistas cosmopolitas, brasileiros da cidade e da roça, e os vários índios de fala tupi-guarani, jê e guaikuru, todos atentos, por razões próprias, a uma taxonomia guará.

C. brachyurus

Para  o brasileiro vivente do cerrado (cidade ou campo), muitas vezes consumidor também de fábulas e iconografias européias e norte-americanas, a atenção à pelagem avermelhada, pernas pretas e focinho comprido grudam o animal à raposa vermelha. A taxonomia da parecença, fundada no viver do observador. O lobo guará vira raposa.

P. vetulus

Para o cientista, esse apaixonado pelo explicar, e que explica o vivo pelo fio de costura e descostura no tempo que é a evolução, o Chrysocyon brachyurus habita gênero próprio na família Canidae, mais próximo até do Canis (grupo do lobo que lhe também nomeia em português) que do Vulpes, da raposa vermelha. O entrelaçar entre o brasileiro do cerrado e o cientista se dão em dois pontos da taxonomia de um e de outro. Raposa, no Brasil, também não é a raposa vermelha. Recebe esse nome, entre outras, a raposa do campo – Pseudalopex vetulus – mais aparentada, segundo a taxonomia acadêmica, ao guará . O lobo guará vira raposa, novamente.

D. australis

Um curioso animal foi descrito pelo próprio Darwin nas ilhas Malvinas, Dusicyon australis, endêmico às ilhas ao que parece, e extinto ao final do século XIX. O canídeo foi redescrito em 2009, com a colaboração dos geneticistas, está claro, como a espécie mais próxima, que se tem notícia, do lobo guará . O bicho era chamado, pelo velho naturalista inglês, Falkland Islands fox. O lobo revira raposa pela intricada via da descrição popular na boca de um cientista.

H. sapiens et C. lupus

Três famílias de línguas, de índios que ainda trafegam nos pampas, chacos e cerrados da sudamérica, também apontam pro lobo guará e fazem surgir três outras taxonomias, nenhuma totalmente surda às anteriores, mas co-fabricantes do falar sobre esse canídeo e sobre os canídeos. O nome em português, ao lado de lobo, já incorpora o nomeação tupi-guarani, guará. Segundo alguns de ago’ará (pelo de penugem), e de todo modo aguará-guaçu, cachorro ou raposa grande, para uns tantos povos guaranis. Os índios gaviões, que falam uma língua jê, fazem algo parecido com os cientistas. Chamam cachorro de tchô, chamam raposa de tcho-rê (cachorro pequeno) e o lobo guará de tcho-tê (cachorro grande). Todos da mesma família tchô, entrelaçando (na parecença dos gaviões, é claro, pois todos que nomeamos somos observadores) os canídeos na distinção.

Dos índios tobas, que falam uma língua guaikuru, assim nos conta Laura Steiman, do seu sítio Aguará Guazu:

Los indios tobas nos cuentan esta historia. El término Aguará Guazú es un vocablo guaraní. Los tobas lo llaman Kalak, y en su clasificación zoológica lo apartan del mundo de los zorros. Para ellos el Kalak es un ente en sí mismo sin contacto alguno con el guayaga (zorro). Numerosas veces, tomando mate alrededor del fuego con mis amigos e informantes tobas, he oído de sus labios acerca de la llamada nocturna que hace el kalak a la hembra y de cómo esta responde a la distancia. Como se van llamando y cómo se van acercando. También he escuchado que es “malo”(tabú) matar a a un kalak; que no hay que” mariscar”(cazar) al kalak.

No hay que mariscar el kalak. Ou o lobo guará. Ou a raposa. Ou o tchô. Mariscados – enredados – estamos todos nós na caninidade por nós descrita. E nem sempre do mesmo modo, ou do mesmo mundo.

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A tigresa fala

No zoológico de Leipzig, vivia ali por volta de 2004, se não vive ainda, uma imponente tigresa adulta. No caminho para o laboratório, passávamos todos – alunos, pesquisadores, tratadores, visitantes – pelos fundos dos recintos noturnos do zoo, e no meio do caminho havia a tigresa. Livre do horário de visitação, a gata rondava a cela naquele autismo característico do felino enjaulado, de um canto a outro, repetidamente.

O entardecer do inverno alemão, o céu rubro-cinza cortado pela silhueta da tigresa em movimento, os olhos brilhando. Muitos de nós não víamos ali um pobre animal aprisionado, mas uma fera poderosa, pronta para saltar sobre o cardápio de BSs, MSs e PhDs e suas respectivas reputações acadêmicas.

O corpo da tigresa, já sem listras nítidas (e é preciso nitidez no óbvio?) no anoitecer, fala com todos os que observam, diz por ser corpo e ser vivo, e diz por ser corpo no observar de outros corpos. Ouvir a lingua dos corpos não está no cardápio de opções do vivo e daqueles que falam sobre o vivo. O prato é servido quente, ininterruptamente, da alvorada ao ocaso de todos os seres.

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O gato preto: primeiras pegadas

Não é uma descrição do blog, nem uma carta de intenções. As palavras iniciais de O Gato Preto, de Poe, sugerem a possibilidade de que o doméstico e o assomboso (o familiar e o único) se alimentam e se fazem multiplicar, pois desde o início não formam um par, mas uma multidão.  As pegadas do gato iluminam o caminho que se bifurca à exaustão.

“Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos”.

Edgar Allan Poe, O gato preto, 1843

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